
Com origem em diferentes fases da prática artística de José Maçãs de Carvalho — desde obras já existentes até criações inéditas —, os trabalhos aqui expostos revelam-se na tensão entre a imagem fixa e a imagem em movimento, evitando um comprometimento total com qualquer possibilidade de polarização. A fotografia e o vídeo não se afirmam como campos opostos, mas como regimes visuais em fricção contínua, onde a imagem se pensa enquanto duração, deslocamento e relação. Neste território instável, os conceitos de unicidade e eternidade entram subitamente em contradição, colocando em crise a ideia de uma imagem autónoma e definitiva.
O caminho traça-se a partir da impossibilidade de a fotografia existir numa ontologia singular. A imagem é forçada à convivência — súbita ou planeada — com um seu semelhante. Dessa relação, emerge uma visualidade invisível. A fotografia, enquanto imagem, manifesta-se assim como uma aparição intersticial e intuitiva, mais próxima de um acontecimento do que de um objeto fixo.
Vinte e um minutos para uma imagem são milhares de imagens. Esta afirmação factual evidencia a dimensão temporal que atravessa qualquer experiência visual. Um vídeo é composto por uma sucessão vertiginosa de fotogramas, tornando explícito que a imagem em movimento não substitui a imagem fixa, mas, antes, a multiplica, fazendo do próprio devir matéria imagética. Falar de intersticialidade é, por isso, falar também de sobrevivência: da imagem que resiste à saturação, à aceleração e ao consumo contínuo do visível.
Importa refletir, neste contexto, nesta imagem da imagem e no gesto — inevitavelmente hierarquizante — a que a submetemos diariamente. Atribuímos valor, permanência ou esquecimento às imagens de forma quase automática, condicionando a nossa relação com o que vemos — a exposição propõe uma suspensão desses automatismos. A imagem pode surgir da série ou pode forçá-la. A sua vizinhança pode ser construída ou ocasional, regulada ou acidental. Nestes movimentos, a fotografia passa a existir mais ou menos em detrimento de si própria, cedendo lugar a uma intuição que se faz imagem.
Não se trata de representar o real, mas de estabelecer com ele uma relação adulterante, apenas porque reconhecemos estar perante uma narrativa da narrativa, um seu duplo: pérfido, armadilhado, deslocado. Ainda assim, não deixamos de ser afetados pelas suas derivas e tentações. Mesmo quando sabemos que estamos perante um artifício, o olhar cede. As obras expostas revelam, assim, a fragilidade da nossa posição enquanto espectadores e a persistência do desejo de acreditar na imagem.
Entre o fixo e o móvel, entre o único e o múltiplo, estes trabalhos propõem uma experiência de atenção prolongada que demonstra o potencial inesgotável da imagem.
Daniel Madeira
José Maçãs de Carvalho (1960) é artista, curador e professor universitário. É doutorado em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (UC), desde 2014; estudou Literatura na década de 1980 na mesma universidade, e Gestão de Artes na década de 1990, em Macau, onde trabalhou e viveu. É professor no Departamento de Arquitetura e no Colégio das Artes da UC, onde é coordenador do Mestrado em Estudos Curatoriais. É investigador integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da UC e Consultor da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea-DGArtes.
Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Oriente, Instituto Camões e Centro Português de Fotografia. Em 2003, comissariou e projetou as exposições temporárias e permanente do Museu do Vinho da Bairrada, Anadia; em 2005, comissariou My Own Private Pictures, na Plataforma Revólver, no âmbito da Lisboa Photo. Foi nomeado para o prémio BES Photo em 2005 (2006, CCB, Lisboa) e para a shortlist do prémio de fotografia Pictet Prix, na Suiça, em 2008.
Entre 2011 e o presente, tem realizado várias exposições individuais em torno do tema da sua tese de doutoramento (arquivo e memória): no CAV, Ateliers Concorde, Colégio das Artes, Galeria VPF, Arquivo Municipal de Fotografia, Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, Museu do Chiado e MAAT–Fundação EDP. Publicou o livro Unpacking: a desire for the archive pela Stolen Books, em 2014.
Em 2015, foi publicado um livro de fotografias suas intitulado Partir por todos os dias, na Editora Amieira. Em 2016, participou no livro Asprela, fotografia sobre o campus universitário do Porto, editado pela Scopio Editions e ESMAE/IPP. Em 2017, publicou o livro Arquivo e Intervalo, no âmbito da sua exposição Arquivo e Democracia, no MAAT, numa edição Stolen Books/Colégio das Artes-UC.
Desde 2020, como curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, organizou diversas exposições, sendo de relevar o projeto curatorial Um silabário por reconstruir, em Coimbra, Elvas, Óbidos e Porto, em 2025 e 2026, no âmbito da candidatura aos primeiros apoios da RPAC.
Está representado nas seguintes coleções de arte: Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Encontros de Fotografia de Coimbra, Encontros da Imagem de Braga, Fundação Oriente, Instituto Português do Oriente, RAR Holding, Coleção António Cachola, Coleção Figueiredo Ribeiro, Coleção Norlinda e José Lima, Fundação PLMJ, Coleção Armando Martins, Coleção Pinto da Fonseca, Coleção J.L.M., Coleção Associação Industrial Portuguesa, Fundação EDP, Coleção BES/Novo Banco Art, Coleção LR, Coleção ER, Coleção Agatha Ruiz de la Prada, Coleção Paco Barragan, Coleção Rita e Gonçalo Lima, Coleção Isabel e Carlos, Coleção Luís Negrão e Família, Coleção Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo, Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE).