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A partir da Coleção de Arte Contemporânea do Círculo de Artes Plásticas de
Coimbra (CAPC), a exposição fight Lookism!! ou O meu olhar é pouco para ver-
te reúne trabalhos de pintura, desenho e fotografia que se cruzam no território
da figuração. Estas obras abordam, de modos distintos, um dos grandes temas
da História da Arte — a representação da figura — conduzindo-nos por um
percurso alternativo na evolução deste género.
A Beleza, ou o Belo, são aqui abordados a partir de duas ações
complementares: questionar e desvelar. O olhar torna-se matéria de reflexão.
Entre o gesto e a contemplação, entre a imagem e o seu avesso, a exposição
propõe pensar no que vemos e no que deixamos de ver, quando olhamos.
Com o modernismo, a representação da figura afastou-se de uma perspetiva
idealista. Por um lado, a representação do mundano afirmou-se como um
primeiro momento de fuga à normatividade da imagem, estendendo a
possibilidade de representação a fragmentos do real outrora excluídos. Por
outro, a própria ação figurativa tornou-se terreno de cambiantes — entre o
adeus e o regresso à pintura — expondo assimetrias, instabilidades e
invisibilidades que revelam uma leitura da imagem devedora, entre outros
campos, da psicanálise e outros deformadores. Podemos pensar, a título de
exemplo, em Francis Bacon ou Egon Schiele. A própria fotografia,
desenvolvendo-se numa permanente relação com a pintura, foi apresentando
uma forma de representação alimentada por um certo realismo ambíguo. No
contexto desta exposição, identificamos estes aspetos fundamentais para a
compreensão desse afastamento.
O lookism designa uma forma de preconceito ou discriminação fundada na
aparência física. Implica, muitas vezes, a extrapolação de juízos sobre outras
características — como a inteligência, o talento ou a competência — a partir da
simples observação do corpo ou do rosto. Assumindo, assim, a sua condição
discriminatória, o lookism surge como pulverização do belo. O nosso olhar é,
de facto, pouco para ver; importa afastarmo-nos dessa condição quase
algorítmica — utilizando o jargão da época — perante a imensidão de imagens
que diariamente nos assalta.
Escreveu John Berger que nunca nos limitamos a olhar para uma coisa:
olhamos sempre para a relação entre as coisas e nós mesmos. É nessa tensão
da visualidade que nos constituímos a nós e ao Outro. O visto reclama atenção
do sujeito do olhar numa troca constante de papéis — num furto mútuo e
contínuo de universos.
Daniel Madeira